Baixa vacinação é ameaça para o País

Baixo índice de imunização abre espaço para que doenças erradicadas no Brasil voltem à tona. Sarampo e poliomielite são as mais preocupantes, mas a febre amarela também se torna ameaça, na medida em que situação de quase epidemia assustou a região Sudeste em 2017 e começo deste ano. O Ministério da Saúde divulgou, no fim de junho, um alerta para 312 municípios em que a cobertura vacinal está abaixo dos 50%, sendo o recomendado igual ou maior que 95%. Especialistas culpam fake news (notícias falsas) sobre problemas causados pelas vacinas para a diminuição.

No Brasil, o último caso de poliomielite, também conhecida como paralisia infantil, causada pelo poliovírus foi registrado em 1989, e desde 1994 foi dada como erradicada no País. Mas agora volta a ser uma ameaça. O índice de vacinação contra pólio passou de 100%, em 2002, para 77% no ano passado.

Segundo a infectologista do Centro de Informação em Saúde para Viajantes Káris Rodrigues, a baixa cobertura vacinal é o que mais facilita a reentrada da doença no País, mas não o único. “Uma vez que, além de o vírus ser transmitido por saliva, tosse ou espirro, a contaminação também acontece por via fecal-oral. Então, nos locais onde a condição sanitária é precária, temos um fator adicional a contribuir para a reintrodução do vírus e, portanto, da doença”, afirma. No caso do sarampo, a transmissão é exclusiva pessoa-pessoa, de modo que a cobertura vacinal é a única proteção.

O Grande ABC não foge à regra geral do Brasil quando se trata da baixa adesão às campanhas de vacinação. Quatro cidades apresentam cobertura abaixo dos 95% recomendados. As que apresentam maiores dificuldades são Santo André e Ribeirão Pires, cujos índices de vacinação contra poliomielite e sarampo (incluída na vacina tetravalente, que também protege contra caxumba e rubéola) estão em torno de 63% e 67% respectivamente. Em seguida, Diadema, com 81% para pólio e 85% para sarampo, e São Bernardo, com 87%, apresentam taxas mais próximas do estipulado. Já Mauá conseguiu alcançar o índice desejado, e ostenta 95% de cobertura vacinal.

Parte da culpa pela cobertura vacinal abaixo do recomendado, segundo a médica, são os movimentos anti-vacina, que convencem as pessoas a não se vacinarem e não vacinarem seus filhos. “Esse movimento se baseia em série de argumentos sem nenhuma base científica. Como um trabalho realizado por um cirurgião, que associou a vacinação contra sarampo/caxumba e rubéola com autismo”. Vários surtos de sarampo já foram descritos em países da Europa e nos Estados Unidos devido às falhas de cobertura.

A OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) informou sobre a detecção de poliovírus em um caso de paralisia em uma criança de 2 anos e 10 meses, sem antecedente de vacinação, residente em uma comunidade indígena em Delta Amacuro, na Venezuela. Em cenário em que ao menos 800 imigrantes venezuelanos entram no País por dia, um caso confirmado tão próximo liga o alerta.

A entrada de refugiados venezuelanos não imunizados no Brasil já trouxe consequências para o lado do sarampo, sendo registrados mais de 300 casos da doença nos Estados de Roraima e Amazonas, os que mais recebem refugiados.

Vacinação contra pólio iniciou na região

O último caso de poliomielite, doença causada pelo poliovírus, registrado no Brasil aconteceu em 1989. Cinco anos depois, em 1994, o País recebeu certificado de eliminação da doença devido aos esforços do Programa de Imunização Nacional, que começou na década de 1970.

Antes do programa se consolidar, porém, campanhas experimentais com a vacina oral foram realizadas uma década antes em algumas cidades do Brasil, quando epidemias de poliomielite eram comuns. Santo André, em 1961, foi a primeira a receber o experimento.

A secretária aposentada Sônia Guiraldelli, 59 anos, moradora do Jardim Marek, em Santo André, foi uma das muitas crianças que tomaram uma das primeiras doses da vacina. Mas a prevenção não foi o bastante. Com 1 ano e meio, ela contraiu a doença, que paralisou e atrofiou seu pé direito. No começo, os sintomas enganaram os pais de Sônia. “Comecei a sentir uma febre muito alta e a mancar. Me levaram ao médico, que engessou meu pé, achando que tivesse torcido”.

Os sintomas iniciais da pólio não são muito específicos. A doença começa com febre, mal-estar, dor de cabeça, podendo ter irritações de garganta e dor nas pernas. Um a cada 200 indivíduos evolui com a paralisia, que é irreversível. “Destes, de 5% a 10% podem morrer em função de paralisia da musculatura respiratória”, explicou a infectologista do Centro de Informação em Saúde para Viajantes Káris Rodrigues

A andreense passou por cirurgia aos 13 anos para corrigir o pé direito, que ficava dobrado, mas ele continua menor do que o outro, a perna é mais fina e os tendões do tornozelo não se desenvolveram. Ainda hoje a doença traz efeitos colaterais. “Tenho osteoporose grave por apoiar o meu peso muito de um lado só”.

Porém, Sônia afirma que nunca deixou que a doença atrapalhasse muito sua vida. “Tive quatro filhas e levei todas para tomar a vacina. Prefiro pensar que a que tomei fez com que minhas sequelas não fossem tão graves”.

Estado inicia campanha amanhã

Com a missão de elevar a cobertura, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo antecipou em dois dias o início da campanha de vacinação contra poliomielite e sarampo, e decidiu realizar duas edições do chamado ‘Dia D’, quando normalmente é feito apenas um. O primeiro será amanhã, enquanto o segundo – e que inicialmente seria o único – acontecerá no próximo dia 18. Serão cerca de 4.000 postos fixos e 300 volantes de imunização em todo o Estado, cuja meta é vacinar pelo menos 2 milhões de crianças entre 1 e 5 anos incompletos até dia 31, quando acaba a campanha.

O esquema vacinal do Calendário Nacional de Vacinação é composto por três doses da VIP (Vacina Inativada Poliomielite), administradas aos 2, 4 e 6 meses de vida, sendo necessários dois reforços com a VOP (Vacina Oral Poliomielite), aos 15 meses e aos 4 anos de idade.

A imunização contra o sarampo é feita por meio da vacina tríplice viral, que protege também contra rubéola e caxumba. O esquema vacinal é de uma dose aos 12 meses, com um reforço aos 15 meses por meio da aplicação da tetraviral, que inclui a imunização contra varicela.

A meta recomendada pelo Ministério da Saúde de cobertura vacinal é maior ou igual a 95%, e deve ser alcançada em todos os municípios brasileiros, tanto na rotina quanto nas campanhas.

No Grande ABC, a atual cobertura vacinal deixa a desejar, pois apenas Mauá atingiu a porcentagem recomendada, mas todas as cidades estimam atingir a meta, sendo que ao menos 25 mil crianças já foram imunizadas neste ano. Para tomar a vacina, basta comparecer à UBS (Unidade Básica de Saúde) mais próxima, das 8h às 17h, com carteirinha de vacinação e documento com foto.

Conforme o calendário nacional, a imunização deve ocorrer entre os dias 6 e 31, com um ‘Dia D’ em 18 de agosto, que também será realizado no Estado de São Paulo. Mais de 35 mil profissionais estão mobilizados na campanha em São Paulo, com suporte de cerca de 3.000 veículos, entre carros, ônibus e barcos.

Embora a campanha tenha como foco crianças entre 1 e 5 anos incompletos, no caso do sarampo, adultos que não estejam com a carteira em dia também podem tomar a vacina, mediante avaliação na UBS.

Fonte: Diário do Grande ABC