Especialistas apontam controvérsias sobre uso de fio dental

Da redação

Especialistas afirmam que a importância de passar fio dental talvez tenha sido superestimada.

O “Dietary Guidelines for Americans”, especie de manual para direcionar as políticas de saúde norte-americanas, retirou o fio dental de seu relatório mais recente.

A edição mais recente da publicação não cita procedimentos para a saúde bucal, nem mesmo a escovação. O guia cita o tema apenas em uma frase que associa açúcares a cáries em adultos e crianças.
No Brasil, o Ministério da Saúde, na publicação “Mantenha seu sorriso: fazendo a higiene bucal corretamente” (2013), a mais recente sobre o assunto, aconselha complementar a escovação com a utilização do fio dental.
“A expectativa que nós nutríamos para o fio dental talvez tenha sido exagerada. Com o passar dos anos, ele precisa de complementos, o que não significa que ele seja inócuo ou que não seja capaz de limpar”, diz Rodrigo Bueno de Moraes, cirurgião-dentista e membro da câmara técnica de periodontia do Crosp (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo).
Talvez o fio não seja mesmo grande coisa, mas se há etapas do desenvolvimento em que ele pode ser importante é na infância e na adolescência, momentos em que as pessoas estão formando os hábitos de higiene. Tanto Rodrigo Moraes quanto a ABO (Associação Brasileira de Odontologia) foram enfáticos ao dizer que o fio dental ainda é recomendado.
“Até onde sei, há trabalhos que comprovam a eficiência do fio dental como um complemento à escovação dos dentes”, diz Marcelo Januzzi, secretário nacional da ABO.
Mas uma revisão de 12 estudos feita pela Cochrane (rede de cientistas que avalia a efetividade de tratamentos) encontrou evidências “pouco confiáveis” de que usar fio dental reduz placas. Os cientistas também não conseguiram achar nenhum estudo sobre a eficácia do fio dental combinado com a escovação para prevenir cáries.
Mas é importante levar em conta também se as pessoas usam o fio dental corretamente. Segundo Januzzi, para a limpeza ser efetiva, os caminhos de entrada e saída do fio devem ser diferentes. Ele deve ser friccionado contra cada dente perto da gengiva e puxado para fora pela lateral.
Da mesma forma que a utilização do fio dental pode ser importante nas primeiras etapas do desenvolvimento dos indivíduos –evitando gengivites que podem causar problemas mais sérios no futuro–, escovas interdentais se ganham relevância a partir dos 30 anos, segundo Rodrigo Moraes.
Essas escovas, mais fininhas, se tornam importantes pela retração das gengivas –espaços entre os dentes– causada pela idade. Enquanto o fio dental retira bactérias das regiões em que os dentes se tocam, as escovas interdentais cuidam das áreas próximas à gengiva.
É por isso que, no pódio da higiene bucal, o primeiro lugar continua sendo da escova de dentes. Depois vem a escova interdental, “notadamente mais eficaz que o fio na limpeza dos espaços entre dentes”, segundo Moraes. Na lanterna, vêm enxaguantes bucais e fio dental.
Segundo ele, alternar métodos de limpeza após as escovações é o melhor mundo possível para a saúde bucal.
“A recomendação para adultos é de duas higienizações bucais por dia. Para uma criança, até três após as refeições. Se em uma delas for possível usar o fio dental e na outra, a escova interdental, a pessoa usufrui do benefício dos dois procedimentos”, afirma o cirurgião-dentista.