Os segredos de Carille na conquista do hepta

Por Stéphany Afonso

Visto com desconfiança no início da temporada e como a ‘’quarta força’’ devido à falta de investimentos, Fábio Carille se consagrou no Corinthians com dois títulos no mesmo ano. Vencedor do estadual, legitimou seu trabalho a uma estabilidade por um período maior que os demais interinos do campeonato brasileiro. A confiança veio ao definir a forma de jogar o quanto antes, deu padrão à equipe e trabalhou para ganhar com consistência. Trouxe compactação, autonomia e estabilidade.

Treinava o sistema defensivo durante seus oito anos como auxiliar e apostou na retaguarda para construir a equipe campeã. Nos primeiros 19 jogos foram 14 vitórias e 5 empates, quase três meses de invencibilidade e um primeiro turno exemplar. Foi um dos únicos que começou o ano e terminou na mesma equipe. Em 12 anos, só Mano Menezes e Tite tinham títulos conquistados no Corinthians. Com eles, levantou oito taças como auxiliar. Chegou em 2009 e foi efetivado em 2017, se consagrando diante dos críticos.

Há quem critique sua oscilação no campeonato, mas, num campeonato longo e de pontos corridos, este fator é totalmente ‘’aceitável’’ quando analisamos o futebol com números. Adepto do 4-1-4-1 de Tite, ajustou seu esquema posicional para a base 4-2-3-1, ambos os padrões que influenciaram na conquista.

Sua sistematização consistiu no controle das partidas sem priorizar a posse de bola, tendo como precedência o domínio de jogo através da ocupação de espaços. Movimentos de pressão e rápida recomposição foram estratégias para atingir de forma direta o adversário desorganizado, recuperando a bola e gerando infiltrações. Além de um time seguro na defesa, com linhas de coberturas bem organizadas, movimentos de recuo e avanços coordenados, era também preciso no ataque. Fábio apostou em aproximações de efeito, rápidas triangulações e ligações diretas. Apesar de ser uma equipe com menor criação e poucos gols, equilibrou ambos os setores para atingir o auge durante os prélios.

Conseguiu o tento de todos os seus jogadores participarem do conjunto, independente de sua função posicional, como por exemplo, Romero e Clayson que apesar de estarem no setor ofensivo, em diversos momentos ajudaram na linha defensiva no trabalho de compensação. Romero tem profundidade e além das características ofensivas, é um jogador que marca bem saídas de bola e possui bons números de desarme.

Já nas laterais, setor de destaque da equipe, as peças de Carille não ficavam espetadas nos lados do campo, seu comando era pra que ousassem da liberdade de movimentação para maior número de inversão de jogo e cruzamentos, através de infiltrações pelo meio. O posicionamento mais livres do laterais foi uma ordem de jogo para quebrar as linhas fechadas do adversário. O ajuste prende mais o segundo volante e libera os laterais ao mesmo tempo, assim essa bola abre passe para a linha de avanço.

O interino realmente queria fazer história. Conhecendo o dna da equipe, apostou numa equipe com centroavante mais estático, capaz de prender os zagueiros rivais ou jogar de costas, fazendo o pivô pra quem vem chegando. Restaurou o oportunismo de Jô, que adquiriu brilhante leitura de jogadas para suas finalizações. Já Romero, foi encarregado de confundir a defesa adversária, brilhou em jogadas de fundo e também no meio, praticamente comandou a maioria das jogadas enquanto Rodriguinho se mantinha mais aberto. Mas, se ainda assim faltasse brilho destes personagens, Carille montou uma zaga de bons jogos aéreos.

Assim, finalizou o ano com mão na taça após uma temporada onde permaneceu 30 rodadas na liderança. Será então, mais um dos grandes técnicos nesta saga do Corinthians, rumo a mais uma ascensão? Os apaixonados alvinegros dizem que sim, mas os números também. Com isso, já podemos calcular um grande ano de 2018. Que brilhe Fábio Carille, mais uma vez!