Rede pública atende apenas 5% dos alunos em tempo integral

A oferta de vagas para Educação em tempo integral (considerando os ensinos Fundamental e Médio) alcança apenas 5,36% do total de alunos (374,6 mil) das redes municipais de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Mauá e Ribeirão Pires e estadual das sete cidades (Diadema e Rio Grande da Serra não informaram a quantidade de alunos das redes). São Bernardo e São Caetano contam com programas que atendem 4.000 e 2.600 estudantes, respectivamente. Na rede estadual, são 13.267 beneficiados, em universo de 254 mil crianças e adolescentes.

Coordenador do Observatório da Educação do Grande ABC e professor da USCS (Universidade de São Caetano), Paulo Sérgio Garcia afirmou que os PMEs (Planos Municipais de Educação) preveem ampliação em até 50% das vagas para Educação em tempo integral até 2025, mas que a capacidade de investimento das prefeituras tem sido fator de dificuldade para o avanço dessa política .

“O PNE (Plano Nacional de Educação) induziu os municípios a ampliarem as suas vagas de Educação em tempo integral, que tem série de benefícios. Do ponto de vista de aprendizagem, inúmeros estudos, desde a década de 1970, mostram que uma das principais categorias na aprendizagem do aluno é o tempo. Claro que isso tem que ser relativizado, mas de forma geral, mais tempo significa mais atividades”, afirmou.

“Do ponto de vista social, maior permanência na escola representa mais proteção para crianças em situação de vulnerabilidade”, comentou. Por esse aspecto, as cidades que não contam com aulas em tempo integral, mas oferecem atividades no contraturno, também alcançam bons resultados. Na região, Santo André, São Bernardo e Ribeirão Pires contam com programas que atendem alunos além do horário de aula. Em Mauá, as atividades são para crianças com deficiências, mas a administração não informou quantas vagas o programa disponibiliza. Diadema e Rio Grande da Serra não responderam.

São Bernardo lançou, em janeiro de 2017, o programa Educar Mais, que ampliou a carga horária de cinco para nove horas diárias. São atendidos atualmente 4.040 alunos de 15 escolas, que além das disciplinas de cada série, contam com atividades complementares como inglês, grupos de estudo, jogos de tabuleiro, linguagens artísticas, educação ambiental, iniciação científica, cultura do movimento, protagonismo infantil e pensando no futuro. A rede atende, no total, 82 mil estudantes. Em São Caetano, são 2.675 do Ensino Fundamental que também passam o dia todo na escola e, além das aulas da base curricular, frequentam oficinas de artes cênicas, iniciação esportiva, científica, música, dança, artes plásticas e visuais, expressão corporal, robótica/informática e experiências matemáticas, entre outras atividades.

Nas 38 unidades do Estado que disponibilizam atividades em tempo integral, 13.267 alunos dos ensinos Fundamental e Médio contam com as matérias da Base Nacional Comum e um currículo diversificado, que pode conter disciplinas eletivas, aulas experimentais, projeto de vida, clube juvenil e tutoria. A implantação do modelo depende de aprovação da comunidade escolar.

Atividades no contraturno precisam de sistematização
O coordenador do Observatório da Educação e professor da USCS (Universidade de São Caetano) Paulo Sérgio Garcia afirma que as iniciativas das gestões municipais de implantar atividades no contraturno escolar é positiva, mas precisam ser observadas características das abordagens. “Precisam de sistematização, de intencionalidade e de mediadores”, explicou. “Ou seja, há necessidade de planejamento e acompanhamento. Dentro disso, cada administração vai desenvolver seu modelo”.

Ribeirão Pires mantém parceria com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), por meio do CBF Social e apoio da empresa WTC , e oferece para alunos de 6 a 17 anos, das redes pública ou privada, o projeto Gol do Brasil. As aulas acontecem no contraturno escolar, no Centro Esportivo Vereador Valentino Redivo, e são ministradas por professores da rede municipal treinados pela CBF. Cerca de 250 alunos estão matriculados.

Em Santo André, 1.700 alunos de 6 a 11 anos participam do Mais Saber, programa que amplia em duas horas a permanência dos alunos nas escolas para atividades de artes, artes musicais, sustentabilidade, cidadania e valores e atividades rítmicas e recreativas, além de apoio pedagógico para português e matemática (leia mais abaixo).

Até 2017, Santo André, São Bernardo, Diadema e Mauá contavam com recursos do governo federal, por meio do programa Mais Educação, que foi reformulado no ano passado e mudou os critérios de seleção, passando a priorizar crianças em situação de extrema vulnerabilidade social e rebatizado como Novo Mais Educação. Mais de 6.000 alunos eram beneficiados. O Diário publicou reportagem em que mostrava a queda no número de atendidos em julho de 2017. Atualmente, apenas uma escola de São Bernardo integra o programa, com 115 alunos atendidos.

O MEC (Ministério da Educação) ainda apoia mais de 250 escolas municipais e estaduais do Grande ABC por meio do programa Mais Alfabetização, que destina recursos para o pagamento de um assistente de alfabetização para o desenvolvimento de atividades pedagógicas, bem como material de apoio didático-pedagógico, via PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola). O objetivo é fortalecer o processo de alfabetização. São beneficiados cerca de 42 mil alunos.

Programa Mais Saber completa um ano em Santo André
Logo que a equipe de reportagem entra na escola já é possível ouvir o barulho das 50 crianças que estão no pátio da Emeief (Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental) José do Prado, no bairro Sacadura Cabral, em Santo André. Todas fazem parte do programa Mais Saber, que amplia em duas horas diárias a permanência de 1.700 alunos em 17 escolas para atividades de artes, artes musicais, sustentabilidade, cidadania e valores e atividades rítmicas e recreativas, além de apoio pedagógico para português e matemática e que em julho completou um ano. A rede conta com 17.150 alunos, e a meta de universalização é 2020.

“Foram as mães de conselho dessa escola que se mobilizaram e entraram na briga para que as atividades fossem retomadas quando deixamos de integrar o Mais Educação”, explicou a vice-diretora da escola e ex-coordenadora do programa do governo federal Marinalva de Souza.

Os monitores do programa, que acompanham as crianças, são moradores da comunidade – muitas, mães de alunos – que passam por formações ministradas pela administração municipal e recebem ajuda de custo.

O coordenador de cada unidade também é um integrante da comunidade local. “Tínhamos professores nesse papel, mas não temos tido como tirar esse profissional da sala de aula”, relatou a coordenadora de projetos educacionais da Prefeitura de Santo André Patricia Perrucci. O apoio pedagógico é ministrado por professores da rede.

“Nas nossas avaliações tem sido possível ver a evolução das crianças que integram o programa, especialmente em leitura, escrita e matemática. Também sabemos que são duas horas a mais que essas crianças não estão nas ruas, duas horas a mais de proteção com atividades importantes para o desenvolvimento pedagógico e emocional delas”.

Para a estudante Kelly Angels, 9 anos e aluna do 4º ano, a atividade preferida é o judô, mas o programa também tem ajudado na leitura. “Já leio livros e gibis”, comemorou. Anderson Filipe Brasão, 11, confessa que gosta mesmo é das brincadeiras, mas admite que seu comportamento em casa e na escola melhorou depois de passar a frequentar as oficinas.

“É um programa de suma importância para os alunos e cujos resultados vemos todos os dias”, destacou a diretora da unidade, Monica Roberta Dias.

Fonte: Diário do Grande ABC